sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Partida de um herói ou saga de um volantim


Eu estive fora por um bom tempo. Eu saí de casa para procurar a felicidade, levando uma pequena mala e todas as minhas humildes economias. Eu me despedi da minha família cheio de aparente segurança, mas com o coração sangrando por dentro. Eu precisava me encontrar, constituir a minha própria família. Eu precisava fazer o meu próprio ninho. E nesse ninho sempre haveria um lugarzinho a ser preenchido, ao meu lado. Passaram-se noites, semanas, anos. E tudo o que este homem aprendeu é que precisava engatinhar. A vida é difícil lá fora... Em minha mala, roupas que saíram de moda. As minhas já humildes economias se foram na tentativa de oferecer aconchego. Talvez eu tenha tentado dar mais a esse lugarzinho do ninho, ao meu lado, do que a mim mesmo - mas justamente por pensar que estaria dando, no fundo, a mim. Eu não pude ser jovem. Eu não pude sair, divertir-me. Eu também não quis fazê-lo. Eu só quis ser um marido e um pai que do trabalho ia para casa, estar com essa família que ele nunca construiu. Eu só tinha um saquinho de pão fresco, um sorriso, um beijo, e uma noite de aconchego a presentear para quem amo. No fim, a única certeza que eu tenho é a de que eu ainda engatinho, pois nunca tive alguém para me ajudar a levantar e me conduzir até eu andar com as próprias pernas. Dizem que o ser humano é o animal mais dependente da natureza enquanto é novinho. A ele não só basta amamentação. A ele não só cabe instinto. Precisam ensiná-lo a andar, a falar, precisam levá-lo à escola, ao médico quando fica doente. Precisam orientá-lo em uma infinidade de coisas. Ninguém vive só! E eu sou um homem, sou uma certidão de nascimento, uma carteira de identidade, um cidadão cheio de deveres. E eu sou uma criança que só amargou o tropeço.
Eu estive fora por um tempo, mas agora eu vou voltar para casa. É quase a parábola do filho pródigo. Eu vou voltar sem um centavo no bolso, por ter investido tudo numa felicidade que nunca veio. Esse bolso é o meu coração, e essas economias eram a minha riqueza interior. Eu preciso ser um pouco cuidado agora. Como uma criança novinha. Ou como um idoso...

D'Volantim

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